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O ABECEDÁRIO de ERIC COLLETTE

V

Eric Collette colocou de lado suas fabulações a partir da prosa de Franz Kafka. Ele decidiu se concentrar nas letras latinas. Sem dúvida, neste momento, ele retorna à infância, quando passou pelos portões da escola primária. E como qualquer um fez a aprendizagem da Língua.

No começo, foi o alfabeto com suas letras maiúsculas associadas à substantivos: A para asno, B para besteiras, C para circum-navegação. Ele colocou de lado as palavras preservando apenas as maiúsculas, arquitetônicas como monumentos indestrutíveis. E tudo que o interessa é sua estrutura: seu ombro, seu molde, seu olho, sua cavidade, sua goteira, sua contra forma, sua inclinação, sua reserva e, evidentemente, seu corpo.

O artista manipula as letras que recortou em finas chapas de ferro, associando-as e seguindo uma ordem plástica que é pura fantasia. Mas fantasia não é incoerência. O seu imaginário desenfreado não é o figurativo de K.Teise, que em 1926 cria um alfabeto realizado a partir de corpos femininos com trajes de banho. Pelo contrário, ele se pretende construtivista. Mas não como os construtivistas russos e húngaros do início do século XX, que colocam em prática princípios tão rígidos quanto à justiça. Que Nenni! Ele brinca com as maiúsculas e aproveita os efeitos das justaposições ou das superposições graças às transparências ou, ao contrário, às ocultações parciais. Seu modo de criação é complexo. Mas o resultado é límpido, mesmo parecendo atordoante.

Eric Collette cria e atinge um universo estético tocando as letras como podem ter feitos antes dele Gutemberg e seus seguidores, Bodini e Peignot, bem como artistas como Picasso, Braque, Gris, Malevitch, Picabia e, mais recentemente, Bernard Heidsieck, Brian Gysin ou Arthur Aeschbacher com outras livres-razões.

Assim, ele se insere numa longa história. Aquela dos impressores e desses homens e mulheres que brincavam com as letras. Reclama-se herdeiro dos pioneiros da arte moderna, mas, ao mesmo tempo, é um criador em seu tempo com sua linguagem própria tanto formal quanto lúdica. Ele metamorfoseia os velhos caracteres feitos de chumbo em caracteres mais antigos de ferro, como aqueles dos coreanos, primeiros a fazer uso do metal no século XII.

A arte de Eric Collette não carrega referências precisas. Mas ele próprio atribui mil referências. Ele é a memória de tantos eventos que atravessaram a história da escrita. É uma diversão formal muito elaborada que se transforma a partir de um jogo de anamorfoses em uma composição onde o equilíbrio surge dos desequilíbrios.

 

G.G. LEMAIRE

 

 

 

« Já repararam como o Y é uma letra pitoresca com significados sem limites? A árvore é um Y, duas ruas se encontrando é um Y, o afluente de rios é um Y, uma cabeça de jegue ou de boi é um Y, uma taça em pé é um Y, uma flor de Lys sobre seu próprio talo é um Y, um suplicante em pé com os braços erguidos é um Y. » Victor Hugo

 

 

 

Cada impressão da série Arquitetura das Letras é realisada sobre papel Fine Art, 300g, com pigmento mineral, com formato inicial de 30 x 20 cm. Nenhum recurso numerico é usado no processo de criação.