ex-capas I

sobre ex-capas I

“Nada mais belo que a verdade, a verdade por si só é agradável”
Boileau (Épitere IX. Vers. 43)

“Nada mais agradável que o belo, a verdade por si só é verdadeira”, no meu entender é o que melhor se aplica como sentença em Ex-capas de Eric Collette.

Partindo dessa manipulação de sentença começamos a falar do “agradável”, uma vez que se trata de objetos escolhidos num momento a outro, preferir, amar. Preferir porque mais belo que outro. O belo, então o amado, parece não ter nada a ver com o verdadeiro e justamente tem talvez tudo a ver com ele. O limite, aqui, entre o nada a ver e o tudo a ver se decide. Entre lucidez e absurdo é o nosso sistema de compreensão que está sendo questionado.

Inicialmente, o ambiente é de provocação. Tem uma certa ironia num livro manipulado... Quando pedaços de livros estão reduzidos a simples suporte de uma intervenção plástica, é porque o livro já foi percebido de modo diferente.

Mas como foi realmente percebido?

Sabe-se que o livro representa desde a sua criação uma referencia infalível de nossa memória de homem. Com o livro se aumentou a capacidade de nossa memória. O livro é um suporte que tem uma história e nunca é neutro. Eric Collette ignora o conteúdo do livro e assim acrescenta o seu peso como objeto. As referências ao livro como universo de conhecimentos intelectuais estão eliminadas. Se teria assim a negação de um suporte da cultura humana: o livro. Portanto o ato de ler está negado. O conteúdo não interessa, não se lê. Aqui no Brasil podemos citar Osvaldo de Andrade e do seu famoso: “Não li e não gostei”. Só o objeto interessa. Suporte-objeto, o livro é um receptor iconoclasta e estranho carregador de lógica e de uma simbólica história. Conseqüência, miserável objeto renegado a nível de detritos dispensados, o livro se perpetua de objeto do passado a objeto do presente. Na era da revolução tecnológica, o livro é mais que uma tradicional ferramenta do conhecimento, até decorativa (Talvez por não ser interativo).

A capa do livro se revela a Eric Collette pela sua cor, a sua textura, a sua resistência, só pelos seus aspectos plásticos. O suporte já em si um veículo. Se trata então de se desviar do seu aspecto tradicional desvirtuando a sua utilidade prática. As capas desfeitas não oferecem a resistência que o conteúdo lhe dava. Será que elas são leves?

É de fato o relato de Imagens de um mundo muito estranho que se encontra dentro de uma luminosidade Neo-Medieval ou o último choque co condenado chapado em um alfabeto arqueológico ou ainda em um cemitério craniano em um ambiente de hospital psiquiátrico ou diante do infeliz pisando nos próprios ossos no meio de endereços e códigos de um catálogo infinito. Leveza sempre discordante, sempre no limite. Entre o “mau gosto” e o “bom gosto”, Indague-se...

Frederic Petitdemange

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